Eram 07h40 de uma manhã fria em um restaurante na Berrini, zona sul de São Paulo. Tudo estava em sua rotina normal, as mesmas pessoas tomando o seu café diário e pensando nas tarefas que deveriam realizar no dia que estava começando.
O que me chamou a atenção foi uma criança do lado de fora vestida somente com uma bermuda (deveria estar uns 13ºC na rua) e envolvida em um cobertor tão sujo quanto estava o seu corpo.
O garoto deveria ter uns 8 anos, no máximo. Dava para ver em seu rosto o efeito de uma noite inteira acordada para consumir suas pedras de crack, algo que se tornou comum na região.
Quando o menino se aproximou do restaurante para pedir algo para comer, todos os funcionários se mobilizaram, como se fosse um leão em fúria, pronto para atacar sua presa. Depois de ver as garçonetes cercando a criança, empurrando-a para fora e até o cozinheiro, com seus 2 metros de altura, surgindo para verificar se estava tudo em seu “devido lugar”, eu me mobilizei. Pedi para uma das atendentes preparar um café quente e um pão para o garoto para servir do lado de fora ao menos, já que lá dentro ele era uma persona non grata.
Mas, 1 minuto depois a gerente vem falar comigo. “Senhor, eu gostaria de pedir para não alimentar o garoto. Se fizermos isto, ele vai aparecer todo dia e causar confusão”.
Este dia não consegui terminar meu café. Com algumas lágrimas nos olhos, fui trabalhar pensando naquilo tudo e nas palavras da gerente. Eu fiquei questionando se as pessoas bem vestidas, os prédios altos, os carros importados, a nossa hipocrisia, o dinheiro que sempre corremos atrás, o culto ao nosso umbigo, se tudo isso não alimentava a vida drogada de um garoto de 8 anos, que só projeta em seu futuro um modo de conseguir o dinheiro para a próxima pedra. E um mero pão com café, gesto simples (e muito pequeno, concordo) de começar a mudar a rotina do garoto lhe foi proibida.
Respire fundo meu caro garoto de 8 anos, nesta vida não há espaço para você. O ego das pessoas com um pouco mais de condição ocupa todo o terreno dos desfavorecidos.
O que fazer?